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CONTOS E ENCANTOS

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Carolina Lima

Jornalista

O surto

 

Aquele feriado foi esperado com muita ansiedade. Ela nunca havia estado em uma festa fantasia de halloween antes. Sua amiga a maquiou em tons de vermelho e dourado, para combinar com a roupa de ‘diaba’. Seria uma noite memorável, disso não restavam dúvidas. 

Antes de saírem para a festa, ela se fotografou. Fotografou os amigos. E mesmo que sentisse tanta insegurança, sabia que no final tudo acabaria bem.

Ela chegou e se ambientou, cumprimentou pessoas, falou sobre diversos assuntos, beijou a amiga. Dançou ‘Thriller’. E durante a coreografia ela percebeu que algo estava errado, como se os sons estivessem abafados e ela ouvisse apenas sua própria mente, que não conseguia ser clara ou concisa. 

Ela estava na pista de dança e estava na garagem, como um flash passou de um lugar ao outro. Ela gritava, chorava e arrancava os cabelos como se eles fossem descartáveis. Outro flash a levou para dentro da piscina, de roupa, capa, sapato e garfo infernal. Mas ela não sabia nadar. Um amigo a puxou de volta para fora, e a deixou ali, sozinha. Outro amigo se aproximou, houve diálogo, porém ela nunca mais se lembrou sobre o que conversaram.

Foi um acontecimento emblemático e isolado, nunca voltou a repetir-se, mas ainda assim ela se sente assombrada por aquela noite confusa como um borrão em sua mente. A partir dele muita coisa mudou, se encaixou, tomou forma e nome. Foi quando ela entendeu que precisava de ajuda.

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Carolina Lima

Jornalista

A caneta

 

Não me lembro de muita coisa antes de vir parar aqui, dentro da gaveta. Apenas de uma rápida luz ofuscante e logo estava dentro da embalagem e quando dei por mim, na gaveta. Não é uma gaveta qualquer, cheira muito bem e já ouvi comentários a respeito de como a mesa é linda, toda trabalhada em mogno, o que não exclui a impressão real do vazio e solidão.

Nunca pensei ser especial, raramente me tiram daqui para exercer a função que me foi dada: escrever. Sou uma caneta de poucas palavras, muita tinta e exuberância. Já assinei documentos importantes, compras, vendas, divórcio... 

Não sou capaz de calcular quanto tempo passei na gaveta desde que passei a existir, me parece longo, mas não posso ser precisa quanto a isso; mas, depois do que me pareceu um longo tempo sem assinaturas importantes, novamente fui tirada de dentro da gaveta. Surpreendentemente não assinei absolutamente nada, apenas anotei uma sequência estranha de números em um papel delicado, macio e cheiroso. Um bloquinho de papel!

Desde quando... Ei, como foi que... 

Eu não posso falar, não possuo um sistema apropriado para tal. Não compreendo muito bem como isto aconteceu ou desde quando aquele bloquinho esteve aqui, tão perto. Seu papel é tão macio, não reluzente, tão... Por que somos mantidos tão longe um do outro, já que estamos tão perto. 

Não sou uma grande sábia, mas me parece que fomos afinal, feitos um para o outro. Por que sou mantido na gaveta escura de mogno? Preferia estar em cima da mesa, recebendo a mesma luz que o bloquinho, seria mais fácil assim. Será que ele sabe que eu existo? Quando poderei tocar sua superfície novamente?

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Carolina Lima

Jornalista

A falta que o tempo me faz

Eu só queria poder respirar

com menos afobação

Comer com tranquilidade e poder sentir

o gosto dos alimentos em minha boca

Poder apreciar a beleza das árvores que ladeiam a estrada

ao invés de cochilar todos os dias no caminho para o trabalho

Ter um momento para organizar os pensamentos,

as tarefas, a minha vida...

Poder estudar com antecedência ou todos os dias

para não acumular matérias para a última hora.

Tomar café da manhã em casa,

ler durante o horário do almoço,

caminhar pela rua e não atropelar

os que por mim passam

Por em dia minhas séries,

tomar banho antes da aula,

ter ânimo pra fazer maquiagem todos os dias

Sinto falta de ler e terminar livros em três dias

Como se fosse essa a minha profissão...

E poderia ser...

Sinto falta das cores que antes eu via com frequência

e que hoje, não tenho certeza de existirem

Sinto falta do tempo que de mim foi debitado

Sinto falta de tempos passados

Sinto falta de pensar no tempo

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Carolina Lima

Jornalista

Rotina

Despertador. 05:30 AM.  One day in your life. Desliga. Senta na cama. Levanta. Ascende a luz. Banheiro. Água gelada no rosto. Espelho. Chapinha. Tomada. Bebe água. Desodorante. Sutiã. Camiseta. Calça. Chapinha. Cabelo. Espelho. Lápis. Espelho. Sobrancelha. Perfume. Vitamina. Escova. Pasta. Dente. Água gelada na boca. Bebe água. Creme. Relógio. Colar. Meia. Tênis. Mochila. Necessaire. Marmita. Garrafa. Fichário. Casaco. Chave. Tranca. Sai. 06:50 AM. Caminha. Ponto. 07:10 AM.  Ônibus. Cartão. Roleta. Devolve o cartão. Senta. Celular. Fone. Óculos escuros. Ouve Música. Espera. Toca sineta. Levanta. Desce. 07:30 AM.  Caminha. Rodoviária. Guichê. Atendente.  Passagem. Dinheiro. Troco. Sai. Senta. Espera. Lê. Levanta. Ônibus. 07:40 AM.  Cobrador.  Passagem. Roleta. Senta. Celular. Fone. Ouve música. Dorme. Estrada.  Acorda. Toca sineta. Levanta. Desce. 08:30 AM. Trabalho. Entra. Bom dia. Desce escada. Redação. Liga computador. Mochila. Marmita. Garrafa. Cozinha. Geladeira. Água. Redação. Senta. Mouse. Pluga. Internet. Bloco de anotações. Caneta. Facebook. Horóscopo do Dia. Adobe Indisign.  Reunião. Volta. Diagrama. 12:00 PM. Cozinha. Marmita. Microondas. Talher. Almoço. Conversa.  Redação. Senta. Diagrama. 15:00 PM. Telefone. Manda corrigir. Espera. Estuda. Imprime. Confere. Reúne objetos. Guarda. Mochila. Desliga computador. Sobe escadas. Tchau. Sai. 16:30 PM ou 17:00 PM. Caminha. Morro. Faculdade. Biblioteca. Conversa. Senta. Lê. Computador. Estuda. 19:00 PM. Sobe escadas. Sala. Senta.  Aula. 19:50 PM. Aula. 20:40 PM. Intervalo. Dez minutos. 20:50 PM. Aula. 21:40 PM. Aula. 22:30 PM. Sai. Desce escadas. Caminha. Desce o morro. Espera. Van. Estrada. 23:30 PM. Casa. Banho. Janta. Pijama. Carrega celular. 00:10 AM. Deita. Pensa. Dorme.

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Carolina Lima

Jornalista

A Casa Branca

Meus dois únicos amigos estavam reunidos na esquina da minha casa que ficava exatamente no quarteirão que marcava o meio do bairro. Era costume nosso, todo fim de tarde de sábado, nos reunirmos naquele local pra jogar conversa fora, beber e esperar a noite cair. 

Quando finalmente os alcancei, notei que ambos estavam encarando a casa branca do outro lado da rua. Pareciam hipnotizados. A casa trazia um ar de imponência característico das casas antigas, no entanto estava bastante depredada pelo tempo. Atualmente era bem encardida, sua tintura era descascada, seu interior refletia uma escuridão sombria e havia mato por todo lado. Ninguém morava ali desde que me lembro. Meu pai uma vez comentou que casa devia ter seus cem anos. Mas ainda era bela, e incrivelmente convidativa.

Quando encarei a casa senti uma inquietação tomando conta de mim, estávamos ali, apenas parados e encarando a casa, sem dizer absolutamente nada. Senti então um impulso, comecei minha caminhada em direção a casa.

A garota de longos cabelos castanhos virou-se e acenou para que os meninos a acompanhassem. Exitaram ao perceber a proposta que a garota lhes fazia, entrar naquela casa era uma ideia extremamente absurda dada as circunstâncias. Abandonada à tantos anos, deveria ser morada de andarilhos ou animais peçonhentos. Ela lhes proferiu algumas palavras de encorajamento e em seguida eles a acompanharam. Seguiram juntos em direção à antiga e bela casa branca.

Não foi preciso mais que um empurrão para que a porta de madeira corroída por cupins fosse aberta, revelando um interior escuro e poeirento. No ar era possível sentir a umidade que causava o insuportável cheiro de mofo.

Empolgados com a situação, davam volumosas gargalhadas que poderiam ser ouvidas por qualquer um que estivesse passando na rua. Iluminaram o recinto com as luzes de seus celulares e viram que a casa era mobiliada, apesar da crueldade do tempo, podiam ver claramente a beleza de cada objeto naquela sala de estar. A mobília era de fato incrível, e incrivelmente estragada, o que lhes causou grande pesar.

A garota, distraída em sua curiosidade, distanciou-se dos garotos e deparou-se com uma porta no final de um corredor. Ouviu-se um grito. O medo enrijeceu os garotos. Gelados de pânico começaram a procurar por Kate aos berros. O que ouviram em resposta foi muito pior: o silêncio.

Correram pelo mesmo corredor onde Kate desapareceu e notaram uma porta entreaberta. O cômodo que ela abrigava era subterrâneo e a  escada que os conduziu para baixo rangia a cada passo o que piorava a situação, pois quem quer que tivesse pego Kate notaria a chegada deles.

Iluminaram o quarto-porão, ele estava repleto de estantes onde havia uma estranha disposição de vidros que continham conservas de coisas que pareciam órgãos. Assustados viraram-se para subir as escadas prontos para procurar pela amiga em outro lugar, quado depararam-se com a pior cena de suas vidas.

Em baixo da escada o corpo de Kate estava balançando. Pendurada pelo pescoço e com uma expressão de horror ali estava quem tão desesperadamente eles queriam encontrar. Inutilmente tentaram removê-la da forca, mas foram impedidos por uma força que os jogou no chão. Viram apenas um par de olhos amarelos e imediatamente também foram pendurados pelo pescoço até a morte.

Nunca antes a casa branca possuíra fama de mal assombrada, mas anos depois do ocorrido era possível ouvir risadas seguidas por gritos.

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